28/02/2013

O tampo da sanita

Tenho o hábito de, sempre que utilizo a sanita, colocar os tampos para baixo. Os dois. Não adquiri esse hábito enquanto era novo. Mas a certa altura alguém me chamou a atenção para isso, e a partir daí, passei a fazê-lo. Quando comecei a viver com a Raquel sempre insisti bastante com ela para baixar o tampo. Nunca o fez.

Certo dia, estamos fora de casa e ela apercebe-se que lhe falta o telemóvel. Pede-me para ligar. Ao ligar, toca algumas vezes e depois dá impedido. Tento novamente, e vai parar ao voice-mail. Ela já estava a pensar que o podiam ter roubado, mas não podia ser. Não tínhamos passado por nenhum local onde isso pudesse acontecer. Ela começa a tentar percorrer os caminhos que o telefone podia ter feito naquele dia e diz-me que a última vez que o utilizou foi no WC. E acha que o tinha deixado em cima do autoclismo.

Começou a fazer sentido e disse-lhe:
- Se calhar, caiu na sanita. Ao vibrar avançou e caiu. Baixaste o tampo?
Não acreditava que isso pudesse ter acontecido. Não acreditava ou não queria acreditar.
- Não. Não pode ser. Não faz sentido.
- Faz, faz. Por isso é que já nem toca. Deve estar debaixo de água.

E no regresso a casa, lá estava ele. E pensei que a partir desse momento, ela passaria a baixar sempre o tampo. Qual quê? Pensei mal. Nem assim.

Mas a história não acaba aqui, felizmente. Certo dia, já nós tínhamos o gato e constato numas pegadas felinas na parte de dentro da sanita. Digo-lhe que o gato andou lá dentro e que o mais certo é ele ter bebido água de lá. Não sei se bebeu, nem se não bebeu. O que é certo, é que a partir daí, o tampo nunca mais ficou levantado.

27/02/2013

Chapada

Era o ano de 1984. Eu devia ter uns 8 anos. Estávamos na sala de aula. O professor era da velha guarda, daqueles que achava que as réguas passavam muito conhecimento através das mãos. As réguas serviam também para os miúdos se portarem melhor, apesar de alguns estarem constantemente a precisar dessas injeções comportamentais.

O professor estava no quadro a explicar a estrutura das frases. Aquela história do sintagma norminal e verbal... Quê? Pois, tive de ir ver porque já não me lembrava. Mas estava ele a explicar isso, e eu estava a ouvir com atenção, embora os meus olhos estivessem focados no caderno onde ia fazendo uns rabiscos. Ele achou que eu estava distraído e dispara:
- Eduardo, o que é que eu estava a dizer?
O meu coração acelerou. Sentia-o a bater por todo o corpo. Eu sabia a resposta, mas naquele momento bloqueei. Fiquei estático. Sem resposta.
O professor olha para o meu caderno e olha para mim. Não me deu mais tempo para responder. Puxa a mão atrás e trás! Que chapadão. Até fez piiiiiii, aquele feedback que ouvimos quando alguma coisa nos afecta os ouvidos.
Doeu muito, mas pior que a dor daquela mão adulta e grossa a embater na minha cara, foi a dor da situação, que não foi minimamente justa. Estavam todos os meus colegas a olhar para mim e chorei.

Olhando para trás agora, entendo que naquela altura era assim. Já na altura entendia. Nem conhecia outra forma. Não devia ser assim, mas era. E eu até apanhava poucas em relação à média.

E a prova de que as chapadas e as reguadas não ajudavam a aprender, é que a estrutura das frases ficou esquecida. Já a chapada... Nunca a vou esquecer.

E lembrei-me desta história quando vi este vídeo.

Almoço



Confessem lá. Já estavam com saudades destes posts que só não abrem o apetite porque vocês já almoçaram, certo? Certo.
Hoje o almoço foi sopa de coração e rolinhos de linguado com puré. Para acompanhar, desta vez, foi um vinho branco ice tea. No fim ainda tivemos direito, como sempre que ali vamos, a sobremesa e café.
O vinho branco ice tea estava bom, embora tenha sentido álcool açúcar a mais. Não vou dizer onde foi, porque aquilo ultimamente tem estado com muita gente e quero ter lugar sempre que lá vou.

IRC - m/f?

Nos tempos áureos do IRC, era frequente passar umas horas valentes na converseta. Podia adoptar a postura passiva (don't get me wrong), que era a de ficar à espera que metessem conversa comigo, ou a postura mais ativa, a contrária, portanto.

Ora quando tinha a postura passiva, era raro quem metesse conversa comigo. Os homens não falavam comigo - e ainda bem, diga-se - e as mulheres também não davam o primeiro passo. A verdade é que o meu nickname não era muito chamativo - acaba em man - e sabia que tinha de fazer alguma coisa para contrariar a tendência.

Decidi então criar um nickname que não esclarecesse, à partida, se era masculino ou feminino e que pudesse, eventualmente, chamar um pouco mais a atenção das meninas. E adotei um nickname unisexo. Assim, começaram a ocorrer muitas mais conversas, mas era tudo homens. As mulheres continuavam silenciosas.

Como muitos homens iniciavam a conversa, decidi aproveitar as conversas a meu favor. Achei que poderia aprender alguma coisa se tentasse perceber a abordagem deles. Como faziam? O que falavam inicialmente que pudesse ser interessante para elas? E, efetivamente, deu para aprender algumas coisas, e desaprender outras.

Mas outros havia que começavam a conversa com: "m/f?"
A esses nem respondia. Bastava dizer que era "m" para saírem da conversa. Até que um dia em que estava sem ninguém a conversar e com bastante tempo livre, decidi travestir-me virtualmente, seja lá o que isso for.

Entrei com um nickname feminino e rapidamente apareceu a pergunta de sempre: "m/f?". Respondi "f" e a conversa foi rolando. Rapidamente percebi que estava a falar com um moço desesperado. E fui dizendo alguns lugares comuns, e com muitas mentiras pelo meio. Disse que era casada, mas que estava descontente e que precisava de mais acção na minha vida. Fingi-me interessado, ou neste caso, interessada.

A páginas tantas, fiquei sem tempo. Tinha de me despachar na conversa. Ele era do Norte. Combinei encontro no Norteshopping às 22h do próprio dia, mais concretamente junto ao bowling que, naquele tempo existia e eu sabia disso.

- Mas como te vou reconhecer?
- Levo uma saia vermelha. Vais perceber logo que sou eu.
- Ok.
O moço, a certa altura, já só respondia com "ok". Tinha-lhe saído a sorte grande.
- Quero discrição. Isto não é para se saber.
- Ok.
- Ah... e espero que não seja preciso dizer...
- O quê?
- Leva protecção.
- Ok.

A conversa terminou e obviamente não sei se ele se deslocou ao shopping. Se não foi, é porque tinha neurónios suficientes para não se deixar afogar pelo desespero. Se foi, as minhas desculpas a todas as mulheres que àquela hora e naquele local tinham uma saia vermelha vestida.

26/02/2013

A condução delas

Ainda a propósito do post anterior...

É frequente eu ir a conduzir, principalmente na VCI, e vermos algumas asneiras. No início dizia-lhe:
- Quase que aposto que é uma mulher.
E ela ficava indignada, embora algumas vezes me desse razão.

Quando via que era uma asneira de um carro tipicamente masculino, como uma carrinha de caixa aberta, ou um carro mais desportivo, costumava dizer:
- Esse deve ir ao telemóvel, de certeza.
E quando o ultrapassávamos, ela verificava e muitas vezes constatava que sim.

E hoje em dia, é ela que muitas vezes vê as asneiras e em tom de aposta afirma:
- Só pode ser uma mulher.

E antes de se defenderem, deixem-me só dizer que:
1. Há boas condutoras, conheço muitas algumas.
2. Há maus condutores, conheço alguns muitos.
3. Ao telefone, são todos maus.

A promessa do David Fonseca

Há outras promessas, mas como o meu público é, na sua grande maioria, feminino, achei que com o David Fonseca a mensagem passava melhor.



Eu já telefonei e já enviei mensagens enquanto conduzia. E na verdade, também já apanhei alguns sustos por causa disso. E por causa desses mesmos sustos, é que agora, quando o telefone toca, digo-lhe a ela para atender.

E hoje em dia, sempre que vejo alguém ao telefone, buzino em sinal de protesto. A pessoa em causa não vai desligar por causa disso, mas a pessoa do outro lado do telefone vai ouvir e vai achar que essa pessoa está a fazer asneiras enquanto conduz.